
Sexta-feira, 18h30. Faltavam trinta minutos para eu passar o plantão e ir embora. Aquele dia parecia ter se transformado em um ambulatório de enxaqueca. Eu já havia atendido cinco pacientes com cefaleia e, quando abri a próxima ficha, li novamente a mesma queixa: "dor de cabeça". Aline tinha 32 anos, era advogada e entrou no consultório com uma expressão cansada. Sentou-se à minha frente e resumiu o problema em uma frase: — Estou com uma dor de cabeça que não passa.
A dor havia começado três dias antes, de forma gradual, mas vinha piorando progressivamente. Naquele dia, já atingia intensidade 8 em 10. Aline não conseguia descrevê-la muito bem. Dizia apenas que era uma dor "esquisita", como um peso em toda a cabeça. Até ali, poderia ser apenas mais uma cefaleia em um plantão cheio delas. Mas então vieram os detalhes.
A dor piorava quando ela tossia. Também aumentava significativamente quando se deitava. Ela nunca havia tido enxaqueca, não tinha doenças crônicas e nunca sentira algo parecido. Quase no fim da conversa, mencionou que havia começado a usar anticoncepcional oral combinado dois meses antes. Foi nesse momento que a história deixou de parecer comum.
Aline já tinha recebido dipirona e cetoprofeno e dizia estar um pouco melhor. E essa melhora parcial poderia facilmente encerrar o raciocínio de um médico cansado: medicar, orientar retorno e dar alta. Mas aliviar a dor não significa eliminar a causa. A resposta ao analgésico não tem capacidade de separar uma cefaleia benigna de uma cefaleia secundária grave.
Quando observamos a história com atenção, os sinais de alarme aparecem: era uma cefaleia nova, progressiva, diferente do habitual, piorada pela posição supina e por manobras de Valsalva, em uma paciente exposta recentemente a um importante fator de risco pró-trombótico.
O SNOOP10 não serve apenas para decorar red flags. Ele serve para reconhecer o momento em que o emergencista precisa mudar de rota. E, naquele caso, o problema já não era mais controlar a dor. Era excluir uma causa vascular. A hipótese de trombose venosa cerebral precisava ser investigada. Uma tomografia de crânio simples poderia ser normal e não seria suficiente para encerrar o caso. Aline precisava de uma avaliação do sistema venoso cerebral, com venografia por tomografia ou ressonância magnética.
O exame confirmou a trombose de seio venoso cerebral. Ela foi internada e iniciou anticoagulação antes de desenvolver convulsões, déficits neurológicos ou rebaixamento do nível de consciência.
O erro mais provável naquele cenário não seria desconhecer uma doença rara. Seria ignorar uma história cheia de sinais de alarme porque a paciente melhorou depois do analgésico. Na emergência, o nosso papel não é necessariamente fechar todos os diagnósticos. É perceber quando uma alta não é segura e definir a conduta capaz de proteger o paciente do pior desfecho.
Você está no meio de um plantão agitado e a próxima ficha é mais uma cefaleia. A tentação de prescrever o "protocolo da casa", observar a melhora e dar alta é enorme. Mas cuidado: no Departamento de Emergência (DE), o nosso papel não é ser um "curador de dores", mas sim um estratificador de riscos. A cefaleia é uma das queixas mais comuns no DE, e embora 95% sejam benignas, os 5% restantes são as "agulhas no palheiro" que podem custar vidas.

A primeira lição de ouro é: a resposta analgésica mentiu para você. Fontes fundamentais como o Rosen e o ACEP são categóricos: o fato de a dor de um paciente ter melhorado 100% com triptanos ou cetorolaco não exclui causas graves, como Hemorragia Subaracnoide (HSA) ou dissecção arterial. Use a medicação para dar conforto e facilitar o seu exame físico, mas nunca como critério diagnóstico.

Como os achados físicos podem ser mínimos ou inexistentes mesmo em patologias letais, a sua maior arma é a história clínica. O objetivo é diferenciar cefaleias primárias (a dor é a própria doença, como a enxaqueca) de secundárias (a dor é um aviso de algo subjacente grave). Para isso, o mnemônico SNNOOP10 é o seu radar de segurança para caçar Red Flags:
Iniciais (S, N, N, O, O):

Mudança no padrão habitual de dor ou início recente de uma nova dor.
Dor posicional (piora significativamente ao deitar ou ao levantar), sugerindo hipertensão ou hipotensão intracraniana.
Precipitado por espirro, tosse, exercício ou manobra de Valsalva.
Apresentação progressiva ou atípica.
Presença de papiledema ao exame de fundo de olho.
Gravidez ou puerpério (risco aumentado para Trombose Venosa Cerebral e pré-eclâmpsia).
Dor ocular associada a sinais autonômicos (como injeção conjuntival ou lacrimejamento).
Início pós-traumático (mesmo traumas leves em idosos).
Patologias do sistema imune, como HIV/AIDS (risco de infecções oportunistas ou linfomas).
Uso abusivo de analgésicos ou introdução de novas medicações que possam causar cefaleia.
Se o paciente positivou qualquer sinal de alerta, a investigação é mandatória.

Para suspeita de HSA, a TC de crânio simples tem uma sensibilidade próxima de 100% se realizada dentro das primeiras 6 horas do início da dor e laudada por um especialista. Passou dessa janela? A sensibilidade cai, e a punção liquórica ou Angio-TC tornam-se necessárias para descartar o sangramento.
Lembre-se que uma TC simples normal não descarta Trombose Venosa Cerebral (TVC). Em pacientes jovens, mulheres em uso de anticoncepcional ou no puerpério com cefaleia progressiva, a neuroimagem vascular é essencial.

Esta coluna é para aquele momento de reflexão pós-plantão. Sabe aquela conduta que você repete no automático? Algumas delas podem ser, na verdade, armadilhas perigosas que as referências mais atuais, como o Rosen, o ACEP e o Tratado de Medicina de Emergência, tentam nos ajudar a evitar. Confira os 7 principais erros:
Muitos médicos dão alta para o paciente pensando: "Se a dor passou com triptano ou cetorolaco, era apenas uma enxaqueca". Isso é um erro grave. A resposta a medicamentos analgésicos ou específicos para enxaqueca não tem valor etiológico e pode ocorrer mesmo em causas catastróficas, como Hemorragia Subaracnoide (HSA) ou dissecção arterial.
Embora comum, o uso de opioides (especialmente a hidromorfona) é desencorajado por ser menos eficaz que antagonistas dopaminérgicos e anti-inflamatórios, além de estar associado a maiores taxas de retorno ao pronto-socorro e risco de cronificação da dor. A diretriz da AHS de 2025 classifica a hidromorfona IV como "Level A – Must NOT offer" (não deve ser oferecida).
A TC de crânio sem contraste é excelente para sangue agudo, mas pode ser normal em até 30% dos casos de Trombose de Seio Venoso Cerebral. Em pacientes com fatores de risco (como uso de anticoncepcional ou puerpério) e cefaleia progressiva, a Angio-TC venosa (Venografia) ou MRV é mandatória, independentemente da TC simples.
A sensibilidade da TC de crânio para HSA é de quase 100% apenas se realizada nas primeiras 6 horas do início dos sintomas. Após essa janela, a sensibilidade cai e, se a suspeita clínica persistir, você deve realizar uma punção liquórica ou uma Angio-TC para descartar aneurismas ou sangue no espaço subaracnoide.(algumas referências usam 12h)
Uma cefaleia nova ou persistente em idosos nunca deve ser rotulada como "tensional" sem investigação. Ignorar sinais como claudicação de mandíbula ou sensibilidade na têmpora e não solicitar um VHS/PCR pode levar à perda visual irreversível ou AVC.
O uso excessivo de neuroimagem em pacientes com enxaqueca estável ou cefaleia tensional habitual, sem mudanças no padrão e com exame neurológico normal, tem baixíssimo rendimento diagnóstico (yield < 0,5%) e expõe o paciente a radiação desnecessária. O radar deve ser o SNNOOP10, não a insegurança do plantonista.
Muitas vezes focamos apenas no cérebro e esquecemos que a cefaleia pode ser o aviso de uma intoxicação por monóxido de carbono (especialmente se outros familiares tiverem sintomas), glaucoma agudo de ângulo fechado (olho vermelho e dor) ou até uma pré-eclâmpsia no puerpério. Lição de Ouro: O erro no manejo da cefaleia raramente nasce da falta de tecnologia, mas sim de uma anamnese que ignorou os sinais de alarme. Não trate o exame de imagem, trate o paciente e seu contexto de risco.

Se você ainda acha que o manejo de uma enxaqueca grave no plantão se resume a "dipirona, dexametasona e metoclopramide", a atualização da American Headache Society (AHS) de 2025 trouxe uma novidade que vai mudar o seu jogo: o Bloqueio do Nervo Occipital Maior (BNOM) agora é Nível A de evidência.
Isso significa que ele não é mais apenas um "recurso extra", mas algo que você deve oferecer para pacientes com crises de migrânea no Departamento de Emergência (DE).
Estudos mostram que ele é tão eficaz quanto o metoclopramide IV no alívio da dor em 1 hora.
Diferente dos coquetéis IV, o bloqueio não causa acatisia, sedação ou hipotensão.
O procedimento leva menos de 2 minutos e pode ser feito enquanto você aguarda a medicação IV ser preparada.
Ideal para aquele paciente com rede venosa difícil ou que quer evitar agulhadas sistêmicas.
Você só precisa de uma seringa de 3ml ou 5ml, uma agulha fina (tipo a de insulina ou a 13x4,5mm) e o anestésico (Lidocaína 1% ou Bupivacaína 0,5%).


Localize a protuberância occipital externa (aquele "ossinho" proeminente na base do crânio) e o processo mastoide (atrás da orelha).

Imagine uma linha unindo esses dois pontos e divida-a em três partes iguais.

O ponto de injeção fica exatamente na união do terço medial com o terço médio (cerca de 2 a 3 cm lateral à protuberância occipital).

Insira a agulha perpendicularmente à pele, em uma profundidade de aproximadamente 3 a 4 mm (até sentir que chegou próximo ao periósteo).
Aspire sempre! Se não vier sangue, injete de 1,5 a 3 mL do anestésico em leque para banhar o nervo.
Pode ser feito dos dois lados se a dor for holocraniana, ou apenas do lado da dor se for unilateral.
Lição Final: No pronto atendimento, dominar procedimentos técnicos como o bloqueio occipital eleva o seu nível de liderança clínica. O emergencista que sabe usar a anatomia a seu favor não apenas trata a dor; ele entrega um cuidado de alta performance que o paciente (e a equipe) nunca esquece.

Existe uma frase que todo plantonista já ouviu, mesmo quando ninguém teve coragem de dizê-la diretamente: "Foi só passar no pronto-socorro." Como se o nosso trabalho fosse apenas aliviar uma dor, pedir alguns exames e encaminhar o paciente para o especialista certo. Muitos especialistas recebem o paciente já estabilizado, investigado e com o caminho parcialmente construído. O que quase nunca aparece no prontuário é tudo o que aconteceu antes disso.
Foi o plantonista quem precisou reconhecer, em poucos minutos, qual paciente podia esperar e qual estava prestes a deteriorar. Foi ele quem tomou decisões com informações incompletas, acalmou uma família, coordenou a equipe, iniciou o tratamento e assumiu o risco de agir antes que o diagnóstico estivesse completamente fechado. Também foi ele quem evitou a alta errada, percebeu o detalhe escondido na anamnese e mudou a rota antes que uma história aparentemente simples terminasse em catástrofe.
O plantonista faz muito mais do que muita gente imagina. Mas reconhecer a importância desse trabalho não significa romantizar o improviso. A emergência exige preparo. Exige método, atualização e treinamento para que a nossa conduta não dependa apenas da sorte, da experiência acumulada ou daquele colega que, por acaso, estava disponível para responder uma dúvida.
Quanto maior a responsabilidade, maior deve ser o compromisso com a especialização. Porque não basta ocupar uma escala. É preciso estar preparado para liderá-la.
A Preceporia da Dra. Capi foi criada para médicos que querem desenvolver segurança, raciocínio clínico e autonomia para enfrentar o plantão e construir uma carreira a partir deles.
Agende uma reunião para conhecer a mentoria. Vamos entender em que ponto você está e construir o caminho para o médico que você quer se tornar.
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